quinta-feira, fevereiro 20, 2014

A vontade voraz de voltar sempre, de ser dali, de estar aí, de pertencer aqui

A vontade voraz de voltar<br />
sempre, de ser dali, de<br />
estar aí, de pertencer aqui

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A vontade voraz de voltar
sempre, de ser dali, de
estar aí, de pertencer aqui

O T.S. Elliot disse que "o fim de toda a nossa busca será chegarmos onde começamos e ver o lugar pela primeira vez." O meu nome é António Pedro Lopes e nasci em Ponta Delgada. Cresci na Canada Nova dos Arrifes, canada de terra e muros de pedra que de vez em quando se transformava em rio, e que nos anos 90, se transformou em avenida larga e arejada com o nome do Papa João Paulo II. Ouvi as estórias fantasma de felicidade tropical da minha família que se construiu em Angola, e que se refugiou nos Arrifes para se reconstruir de uma guerra.

Nos Arrifes, tomei a primeira e segunda comunhão, vi muitas matanças de porco, ajudei em vindimas, participei em coroações e procissões, comprei muitas rifas, assisti a muitas arrematações, cantigas ao desafio, grupos folclóricos e vi muitas bandas filarmónicas e romeiros passarem. Vi o meu pai vestir-se de Antero, a minha mãe ser operada aos olhos, o meu irmão corrigir testes de alunos de Ciências da Natureza, e os meus primos e tios mudarem de casa várias vezes.

Vivi sempre ali no 1201. Sempre são 32 anos, e hoje essa é a única casa, que chamo casa, a casa de onde bati a asa, a casa do regresso, a casa que guarda a minha história, a casa que guarda a mais preciosa de todas as mulheres, a minha mãe. Nessa casa dos Arrifes recebi muitos barris, ouvi muita Lena D'Água e assisti a todos os Festivais da Canção, Jogos sem Fronteiras, e mesmo, aos Xailes Negros e aos "maus tempos no canal". Acordei com os pesadelos da minha mãe, ou com as obras constantes do vizinho, ou com a notícia da perda prematura de vários amigos em acidentes de mota.

Dos Arrifes, desci sempre à cidade (era longe) para aprender nas escolas , descobrir o mundo cultural que chegava no Blitz via Tabacaria Açoriana, e ocupar os lugares vazios dos cine vitórias e dos cine calhetas antes destes desaparecerem ou se tornarem centros de ajuda espiritual. Ouvi os programas todos de rádio que havia para ouvir, gravei músicas, ganhei concursos e inventei o meu próprio programa de rádio na escola.

De Ponta Delgada para São Miguel, vi os caminhos passarem de terra a alcatrão, as estradas lentas virarem rápidas, vi a Caldeira Velha amornecer, vi muito cimento ser erguido, muita natureza se transformar em parque de estacionamento, ou lugar confortável para turista de pacote vir e ir rápido. Vi muita gente fugir e desaparecer para depois voltar no Natal, Páscoa ou só no Verão, ou nunca mais.

O Coliseu Micaelense fechou e melhorou, ainda que nele nunca mais me tenha esquecido de ali não ter entrado numa noite em que os Resistência ali se apresentavam e que teve um desfecho trágico. Vesti-me de smoking, levei com uma lima no olho, senti medo de mascarados, nadei, aprendi a andar de cavalo, e bati bolas de basquete em vários ginásios da cidade. Cheirei o leite derramado que os lavradores despejaram nas ruas e nas fontes da cidade, e vi a região mudar de cor política.

Os Açores, São Miguel ou Ponta Delgada não cabem num texto de quem ali nasceu um dia. Mas cabem no tempo de uma viagem que dura uma vida toda repleta de contornos, vontades e limites. Não guardo nada com nostalgia porque todo esse passado é para mim simultaneamente presente e história.

A ilha está presente na minha língua, no respeito encantado e assustado pela natureza, e na vontade voraz de voltar sempre, de ser dali, de estar aí, de pertencer aqui. Esteja no Brasil, na América, em Paris ou na China, estarei sempre com os Açores no centro do corpo, na determinação e no palpitar do coração. Deve haver qualquer coisa de resistente nos que nascem numa ilha, qualquer coisa de incessante, sedento e esfomeado pelas coisas do mundo, isso, e muito orgulho. Não sei exatamente o que é, mas vem comigo para todo o lado.

Se o contorno é o limite, e se o limite é melancolia que potencia, os Açores são o paraíso que guardo sempre com saudade, e que carrego na carne com emoção e sentido de pertença sempre que me vejo atrás de um sonho. Carrego escrito no tempo presente. Carrego quando regresso e ocupo o palco do Teatro Micaelense ou as ruas da cidade com o meu trabalho. Carrego quando vejo o futuro no presente nas paredes do Walk&Talk e me sinto no centro do mundo, no emergir das cores e atividade da Rua Criativa, e na chegada dos novos açorianos nacionais e estrangeiros que fazem de São Miguel a sua casa. Carrego esta terra porque ela é também é a minha casa, e a minha casa cabe numa mala de viagens comprada numa loja dos chineses em Ponta Delgada. Carrego esta terra porque ela é uma paisagem em mutação, onde me vejo como sujeito e cidadão perante um lugar novo, repleto de potências, devir e criatividade. Carrego esta terra porque nela vejo poesia, vejo um bailado da garça, vejo um furo no presente, vejo movimento e paz.

Vejo também no seu limite, contorno e horizonte, todo um oceano de possibilidades e uma multitude de renovações que não pertencem a ontem, nem à primeira vez em que se vê uma coisa, mas sim a amanhã e ao futuro, e ao exercício constante de se voltar a olhar e atualizar a perspectiva. Vejo que o meu “eu vejo” pode ser um “nós vemos”, mesmo que os fins voltem a mudar os princípios, nos Açores a paz, a poesia, o limite e a potência não mudam nunca, estão lá sempre. Sempre e aqui e agora como este texto que agora no fim fica escrito, e que só agora está pronto para ser começado.

(Título original: Eu vi, nós vimos)
ANTÓNIO PEDRO LOPES
Agitador cultural e criador de espetáculos


Natural de Ponta Delgada, vive entre o Rio de Janeiro e Lisboa

O link original deste texto está na edição de janeiro do Mundo Açoreano e pode ser lida aqui: http://www.mundoacoriano.com/index.php?mode=noticias&action=show&id=655&fb_action_ids=10152199338304476&fb_action_types=og.likes&fb_source=other_multiline&action_object_map=%7B%2210152199338304476%22%3A211058715756634%7D&action_type_map=%7B%2210152199338304476%22%3A%22og.likes%22%7D&action_ref_map=%5B%5D

sexta-feira, janeiro 31, 2014

MEIO MUNDO ESTRADA FORA


MEIO MUNDO ESTRADA FORA


7 artistas-10 dias-1 carrinha de 9 lugares- 4000 km
 LISBOA - PORTO - MADRID - PARIS
Demimonde-Maus Hábitos-Teatro Pradillo-Festival ArtDanthé
8 - 17 Fevereiro 2014


Andresa Soares
António Pedro Lopes
Gui Garrido
Lígia Soares
Márcia Lança
Nuno Lucas
Vânia Rovisco




MEIO MUNDO ESTRADA FORA é uma viagem percorrida numa carrinha pelo DEMIMONDE um conjunto de artistas sediados em Lisboa. A viagem faz o percurso Lisboa-Porto-Madrid-Paris para apresentar trabalhos performativos em digressão. Esta carrinha de 9 lugares torna-se também uma residência artística ambulante onde os diversos artistas experimentam formatos de discussão, apresentação e colaboração pelo caminho, ao mesmo tempo que transportam os vários espectáculos aos seus lugares de apresentação.

Situando-se entre uma versão actualizada da antiga emigração portuguesa para “ganhar a vida” e a procura de sentido e pertença dos beatniksMEIO MUNDO ESTRADA FORA quer experimentar a viagem para ir devagar, para “viver” e não apenas “chegar, apresentar e voltar”. 

O DEMIMONDE surgiu como um projecto de gestão de um espaço dedicado à criação e experimentação artística cedido pela Câmara Municipal de Lisboa, iniciado por duas estruturas independentes Máquina Agradável (Lisboa) e AADK – Arquitectura Actual da Cultura (Berlim, Portugal e Espanha) bem como por um conjunto de artistas de número variável.

DEMIMONDE foi também o instigador da CELEBRAÇÃO, Culturgest (2012), e dos eventos ORA BOLAS! HÁ ESPAÇO! VAMOS USÁ-LO! (2012) e DEMIMONDE NA GALERIA DA BOAVISTA (2013), ambos na Galeria Municipal da Boavista em Lisboa. Em todos os projectos o denominador comum é a reivindicação de uma força presencial e local de uma geração de artistas atentos aos percursos uns dos outros bem como a criação de uma maior autonomia na criação de contextos para o seu trabalho. Esta comunidade, muitas vezes em constante trânsito, cosmopolita, que não se enraíza, não deixa contudo de reclamar proximidade, presença e familiaridade.

MEIO MUNDO ESTRADA FORA visa a apresentação nacional e internacional dos trabalhos deste conjunto de artistas assim como a vontade de desenvolver novos modos de programação e diálogo entre artistas e programadores.

O projecto decorre durante o período de 10 dias, depois de um pontapé de partida no Demimonde, com as seguintes paragens para eventos de programação e apresentação, em conjunto com 3 diferentes parceiros:


LISBOA_DEMIMONDE_7 FEV

7- SEXTA FEIRA DAS 19h00 ÀS 22h00
Sessão de trabalho em ambiente comensal aberta ao público geral e jornalistas que antecederá a partida do MEIO MUNDO ESTRADA FORA no dia 8.

DEMIMONDE- Rua da Boavista nº48 4ºesq (perto do Largo de São Paulo em Lisboa). 

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PORTO_MAUS HÁBITOS_8 E 9 FEV

8 - SÁBADO DAS 21h30 ÀS 01h30
Abertura  + Live Installation de Vânia Rovisco + Melhor Amigo, António Pedro Lopes e Guilherme Garrido + DJ Party


9 - DOMINGO DAS 16h00 ÀS 22h00
Atelier para crianças, Trompe Le Monde por Nuno Lucas e Márcia Lança Mecânica 1 de João Calixto e Márcia Lança + Peça Vermelha de Lígia Soares + Uma Noite No Porto  com os artistas do DEMIMONDE

8 E 9 - vídeos Again de Márcia Lança e Julho, Uma Entrevista Com um Ursinho de António Pedro Lopes + instalação sonora  Abstract Mechanics de João Lucas








MADRID_TEATRO PRADILLO_ 12 FEV

12- QUARTA FEIRA das 19h00-24h00

Era Uma Coisa Mesmo Muito Abstracta de Andresa Soares e João Lucas + Live Installation de Vânia Rovisco + Pongo Land de Nuno Lucas e Hermann Heisig + Melhor Amigo, Gui Garrido e António Pedro Lopes + Uma Noite em Madrid com os artistas do DEMIMONDE + vídeos Again  e O Desejo Ignorante de Márcia Lança e Julho, Uma Entrevista Com Um Ursinho de António Pedro Lopes


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PARIS_ Festival ArtDanthé_14, 15 e 16 FEV

CARTE BLANCHE À DEMIMONDE
THÉÂTRE DE VANVES_LA PANOPÉE


14- Sexta Feira das 19h30-23h00
Air au Vent de Lígia Soares + The Archaic, Looking Out, The Knight Night de Vânia Rovisco + Melhor Amigo, António Pedro Lopes e Gui Garrido


15- Sábado das 19h30- 23h00
Mecânica 1 de João Calixto e Márcia Lança + La Piéce Rouge de Lígia Soares + Pongo Land de Nuno Lucas e Hermann Heisig + Era Uma Coisa Mesmo Muito Abstracta de Andresa Soares e João Lucas

16- Domingo das 16h-20h00
Un Après Midi à Paris, Artistas do DEMIMONDE com a participação de Ana Rita Teodoro (Assombro)


sexta-feira, dezembro 06, 2013

FIERCE, Novo Vídeo/Canção do MELHOR AMIGO


Please see the video/Vejam o vídeo aqui:http://vimeo.com/76566265





 FIERCE, a new video/song by MELHOR AMIGO. We asked friends from the 4 corners of the world the following questions: What makes you feel fierce? What infuriates you in this world? We asked them as well to send a self portrait of themselves associated to the theme of the video. We hope you like it, you listen to it and you share it with the world.

 












FACEBOOK: facebook.com/melhoramigomusica
LISTEN & Download FIERCE / Ouvir FIERCE & Download:
SOUNDCLOUD: soundcloud.com/melhor-amigo
BANDCAMP: melhoramigo.bandcamp.com/

segunda-feira, dezembro 02, 2013

YUZIN/Museu da Fruta, Dezembro 2013

Queridos todos,

Desde Fevereiro deste ano que colaboro com a YUZIN.
A YUZIN é uma revista e agenda mensal de São Miguel e Santa Maria (Açores) com distribuição gratuita. É sempre um prazer escrever mensalmente o MUSEU DA FRUTA. Para quem não pode ter acesso à versão em papel, eis em anexo a versão PDF do mês de Dezembro.

Novembro: Um arquipélago com três ilhas, um filme, um livro e uma banda: Gonçalo Tocha, Valter Hugo Mãe e The Future Islands.

Vejam aqui : https://issuu.com/agenda_cultural_yuzin/docs/isssuu/1?e=0
 
ou aqui:



Boas Festas :)

FURO, Melhor Amigo



FURO:http://www.youtube.com/watch?v=8tU9nUrQBZ0

MELHOR AMIGO @ WWW
YouTube: http://www.youtube.com/channel/UC4njxnZC7SfawWqLw0Lwl9Q
VIMEO: https://vimeo.com/melhoramigo
SoundCloud: https://soundcloud.com/melhor-amigo
BandCamp https://melhoramigo.bandcamp.com/
E-mail: melhoramigomusica@gmail.com





MELHOR AMIGO is the band of António Pedro Lopes and Gui Garrido formed in in Lisbon in 2011. Together they create pop songs, amidst pianos and guitars, and a voice that sings his heart out in songs about travel, vagabondness, love and crossing our time under panic attacks, a search for lucidity and melancholia. They sing in Portuguese and English, they do originals and cover versions, they’re DYI their songs are HOMEMADE with love and they do so with passion and a desire for more, a desire for a future + Portugal + vibration and + music. Gui Garrido is António Pedro Lopes’ MELHOR AMIGO (best friend) and they’re both performing artists. They met onstage the first time in 2008 for a collaborative show in which they sang songs of The Velvet Underground, Moldy Peaches and Sinéad O’Connor whilst jumping on top of an old piano and stage diving the theater audience. Garrido and Lopes never left each other and the dream of making music prevailed. Today this dream is realized with MELHOR AMIGO ready to share their music with the world through songs, music videos, live performances by collaborating with a multitude of friends in that accomplishment.

Gui Garrido & António Pedro Lopes são ambos artistas do espectáculo, encontraram-se a primeira vez em palco em 2008 para escreverem uma colaboração, qual cabaret de revelações, em que cantavam canções de Velvet Underground, Moldy Peaches e Sinéad O'Connor enquanto saltavam em cima de pianos e faziam stage-divings. Garrido e Lopes nunca mais se largaram e o bicho da canção também não. MELHOR AMIGO fazem canções pop, entre pianos e guitarras, e uma voz de pulmão aberto que canta sobre viagens, errância, amores experimentais e sobre atravessar uma época marcada por uma avalanche de coisas, acontecimentos e ligações, entre ataques de pânico, clarividência e desejos de liberdade. MELHOR AMIGO viram também o lugar para reunir todos os melhores amigos e pô-los ao serviço na instrumentação, artwork e apresentações ao vivo da banda.
 

quarta-feira, novembro 13, 2013

Museu da Fruta / Yuzin Novembro, 2013


Queridos todos,
Desde Fevereiro deste ano que colaboro com a YUZIN.
A YUZIN é uma revista e agenda mensal de São Miguel e Santa Maria (Açores) com distribuição gratuita. É sempre um prazer escrever mensalmente o MUSEU DA FRUTA. Para quem não pode ter acesso à versão em papel, eis em anexo a versão PDF dos meses de Agosto e Setembro.

Novembro: Uma homenagem a Elliot Smith & Ryland Bouchard.

Vejam aqui : issuu.com/agenda_cultural_yuzin/docs/issuu_f56942c3162631?e=7233235/5615299

ou aqui: